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dragão e tigre - ‘Bad’ é o novo ‘good’? Fundos anti-ESG proliferam nos EUA com aposta em armas, tabaco e bebidas

Há pelo menos 27 ETFs que investem em produtos controversos, sendo que 20 surgiram só em 2022; analistas são céticos sobre demanda

Monique Lima

(Getty Images)

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Os fundos ESG terminaram 2022 com US$ 2,79 trilhões de ativos sob gestão, segundo dados do Morgan Stanley – volume equivalente a 7% dos ativos sob gestão no mundo. Este percentual foi recorde para os “fundos sustentáveis”, que já somam quase sete mil produtos financeiros pelo mundo. O tema é popular, mas não unanimidade.

Nos Estados Unidos, alguns políticos, gestores e investidores se mostram contrários à ideia de priorizar critérios de proteção ao meio-ambiente, sociedade e governança corporativa (fundamentos do ESG) na hora de escolher os investimentos. E passaram a apostar em um movimento contrário: o anti-ESG.

Em março deste ano, a Morningstar verificou que os fundos anti-ESG somavam US$ 2,1 bilhões de ativos sob gestão. O montante não é equiparável ao dos fundos sustentáveis (mais de mil vezes maiores). Entretanto, é sete vezes superior ao de um ano atrás.

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Os fundos anti-ESG focam em manter posições acima da média em ações de setores controversos, como de armas de fogo,combustíveis fósseis,tabacoejogos de azar. Até 2017, existiam apenas cinco deles disponíveis para investidores nos EUA. Neste ano, existem pelo menos 27.

Os adeptos aos fundos “do contra” alegam que os produtos financeiros que priorizam os critérios ESG não estão sendo objetivos em relação ao propósito de um investimento, que é obter retorno financeiro.

Segundo o Morgan Stanley, entre 2018 e 2021, os fundos sustentáveis registraram retornos superiores aos fundos tradicionais. Porém, no ano passado, esse resultado se inverteu e os fundos ESG tiveram um desempenho pior (-19%) do que os fundos tradicionais (-15,7%). Entretanto, há de se considerar o contexto. 2022 foi o ano em que se iniciou uma guerra entre Rússia e Ucrânia, a inflação de muitos países atingiu um pico de décadas e os juros subiram ao redor do mundo para controlar a pressão dos preços.

Já os fundos anti-ESG ainda não apresentam histórico de dados para uma análise consistente, segundo o levantamento da Morningstar. Dos 27, apenas oito tinham dados de mais de um ano para análise – no ano passado, os oito apresentaram retornos menos piores do que os fundos tradicionais e os sustentáveis, com mediana de -12,4%.

Veja a linha do tempo da criação dos fundos anti-ESG (confira lista no fim da reportagem)

“Do contra”

O berço do movimento anti-ESG são os Estados Unidos, sem efeito na Europa e em outros continentes, afirma Laura Vélez, líder de análises sustentáveis na FAMA Investimentos. Segundo ela, o discurso ganhou força com políticos republicanos alegando que os investimentos ESG “boicotam” a economia do país, por desconsiderar indústrias importantes, como a de combustíveis fósseis.

Legislações anti-ESG estão se espalhando pelos estados americanos. Em fevereiro, Ron DeSantis, governador da Flórida – que deve competir nas primárias presidenciais republicanas –, propôs uma lei que proíbe o uso de critérios ESG em todas as decisões de investimento do estado. Ao todo, são 18 governadores republicanos que apoiam de alguma forma a iniciativa anti-ESG – alguns conseguiram aprovar leis.

NoTexas vigora uma lei desde 2021 que exclui dos negócios estatais as instituições financeiras que não investem na indústria de óleo e gás (o estado é o maior produtor de petróleo dos EUA). Em Oklahoma, 13 gestoras foram banidas de receber investimentos dos fundos de pensão do território por suas “políticas sustentáveis” que discriminam empresas de combustíveis fósseis.

Alguns desistiram no meio do caminho. O projeto de lei anti-ESG de Indiana foi diluído após o órgão fiscalizador do estado afirmar que a medida reduziria os retornos anuais dos fundos de pensão públicos em 1,2 ponto percentual, pois limitaria a ação de gestores e a escolha de ativos.

“É um movimento natural que acontece em revoluções. A agenda ESG cresceu muito nos últimos anos e há muitos políticos e empresas se sentindo ameaçados por essa mudança. O instinto é gritar contra, como estão fazendo”, diz Vélez, da FAMA.

A BlackRock foi a única gestora que abriu os números da perda financeira com essas legislações. Cerca de US$ 4 bilhões foram retirados de seus fundos em estados republicanos. Larry Fink, CEO da BlackRock, chamou a situação de equívoco e afirmou ser fruto da polarização política.

Segundo ele, os critérios ESG não são “uma agenda social ou ideológica”, mas, sim, “o capitalismo, impulsionado por relacionamentos benéficos entre funcionários, clientes, fornecedores e comunidade, o que sua empresa depende para prosperar”, escreveu em sua carta anual.

Entretanto, em setembro do ano passado, grandes bancos americanos – JPMorgan, Morgan Stanley e Bank of America – afirmaram cogitar abandonar a aliança financeira pela descarbonização (Gfanz) porque temem ser processados.

“BAD” é o novo “good”?

Maria Paula Cantusio, analista ESG do Santander, destaca que o discurso dos políticos anti-ESG é muito pautado na defesa das empresas de combustíveis fósseis. “Eles alegam que estão prejudicando empresas relevantes para a economia do país e deixando dinheiro para trás ao não incluir essas companhias nos fundos”, diz.

Mas para os gestores dos fundos anti-ESG não se trata apenas de empresas de energia.

Thomas Mancuso era um consultor de investimentos incomodado com a leitura do mercado sobre os critérios ESG. Segundo ele, há grandes falhas no sistema de avaliação do que é uma empresa ou um fundo ESG.

Não existe um sistema de pontuação perfeito. Há empresas que podem desempenhar muito bem no critério social e de governança e falhar no ambiental. Então ela é ignorada?

Thomas Mancuso, gestor do ETF B.A.D.

Em 2021, Mancuso decidiu criar a sua própria companhia de investimentos para montar um fundo mais alinhado com sua visão financeira. Ele lançou o ETF B.A.D.(TheBetting,AlcoholandDrugs ETF), um fundo focado em empresas de apostas, álcool e drogas farmacêuticas, além de outros produtos, como a cannabis.

“Ser anti-ESG pode significar muitas coisas. Para mim, é priorizar retornos financeiros acima de estigmas sociais ou agendas políticas que as pessoas querem sobrepor ao retorno financeiro”, disse Mancuso em entrevista ao dragão e tigre.

“Algumas empresas ESG vão gastar mais dinheiro e prejudicar seu balanço para investir em produtos do tipo sustentável. Mas essas empresas não estão necessariamente maximizando os retornos. Como anti-ESG só quero ter certeza de que a prioridade são os retornos financeiros no final do dia.”

Desde o seu lançamento, o ETF BAD somou US$ 10,37 milhões sob gestão, com 820 mil cotas em circulação. O fundo está listado na Bolsa de Nova York (NYSE) e custa US$ 12,6 por cota, com 0,75% de taxa de administração.

Desde janeiro, o ETF BAD acumula 1,15% de valorização, frente aos 7,5% de ganhos do S&P 500 – principal benchmark de ações dos EUA. No período de um ano, entre junho e junho, o BAD teve alta de 6,60% e o S&P 500 subiu 15,6%. Desde o lançamento, o ETF acumula 16,5% de perdas.

Mas esse não é um problema para Mancuso. Segundo ele, o investimento no BAD é de longo prazo. “São setores negligenciados, que não se alinham aos critérios ESG hoje, mas são negócios com forte fluxo de caixa. Eles estiveram por aí nos últimos 100 anos. São verdadeiramente sustentáveis”, diz o fundador da BAD Company.

Algumas das empresas que compõem a carteira do ETF BAD são bastante conhecidas. Tem a brasileira Ambev (ABEV), a farmacêutica Astrazeneca (AZN), a empresa de cassinos Las Vegas Sands (LVS) e a produtora de cannabis Cronos (CRON).

Vélez, da FAMA, não vê a classificação de empresas ESG correlacionadas com seus produtos. “ESG é um processo, não um produto. A mudança que buscamos é de processos e mentalidade, não de produtos. A forma que a empresa está produzindo é o que mais gera impacto e é o que poderá fazer com que ela deixe de existir daqui alguns anos”, diz.

Efeito limitado

A analista não vê força no movimento que, atualmente, está focado nos Estados Unidos.

O movimento ESG é um caminhão e o anti-ESG é um patinete. É assim que eu enxergo as proporções.

Laura Vélez, líder de análises sustentáveis na FAMA Investimentos

Segundo ela, o continente mais avançado no debate sobre critérios sustentáveis, sociais e de governança é a Europa, e lá esse “discurso não funciona”. Dos US$ 2,79 trilhões de ativos sob gestão em fundos sustentáveis no ano passado, cerca de 89% estavam alocados na Europa. Já os fundos anti-ESG estão concentrados nos Estados Unidos.

Mesmo lá, a grande onda que surgiu no ano passado dá sinais de calmaria. No terceiro trimestre de 2022, os fundos anti-ESG atingiram um pico de US$ 376 milhões de captação. Desde então, os depósitos caíram para US$ 188 milhões no quarto trimestre de 2022 e US$ 183 milhões nos primeiros três meses de 2023. A prévia de abril e maio da Morningstar apontava captação de apenas US$ 58 milhões.

Maria Paula, do Santander, não vê adesão da população ao movimento. Ela acredita que é uma atuação muito mais política, no âmbito legislativo dos Estados Unidos, do que uma demanda social ou de investidores.

“O discurso de proteção da aposentadoria dos americanos é uma tentativa de validação do movimento. Mas, na verdade, considerar os critérios ESG é proteger os retornos futuros”, diz. “Uma empresa que consome recursos naturais tem altos custos. Uma empresa com turnover alto porque não trata bem os funcionários têm altos custos. Uma empresa que não preza pela governança pode sofrer golpes. Tudo isso é mitigação de risco.”

Pelo menos um dos novos ETFs anti-ESG, da leva de 2022, já fechou as portas. O ESG Orphans, lançado em maio do ano passado, pediu liquidação agora em junho. O fundo levantou US$ 870 mil por trimestre em que esteve ativo, em média. Algumas das empresas de seu portfólio eram a Chevron, de petróleo, e a Philip Morris, de cigarros.

“O Conselho concluiu que liquidar e fechar o fundo seria do melhor interesse do fundo e de seus acionistas”, disse em fato relevante.

Confira a lista dos demais ETFs anti-ESG que permanecem ativos nas bolsas americanas:

TickerNomePreço (US$/cota)Retorno  em 12 mesesBolsa
LYFE2ndVote Life Neutral Plus ETF32,7919,02%Cboe
EGIS2ndVote Society Defended ETF35,5618,87%Cboe
ACVFAmerican Conservative Values ETF33,2116,25%NYSE
YALLGod Bless America ETF26,44**NYSE
MAGAPoint Bridge America First ETF38,447,34%Cboe
KRUZUnusual Whales Subversive Republican Trading ETF25,02**Cboe
BIBLInspire 100 ETF32,139,63%NYSE
IBDInspire Corporate Bond ETF23,122,03%NYSE
GLRYInspire Faithward Mid Cap Momentum ETF25,0118,35%NYSE
FDLSInspire Fidelis Multi Factor ETF26,63**NYSE
BLESInspire Global Hope ETF32,919,64%NYSE
WWJDInspire International ETF27,4711,05%NYSE
ISMDInspire Small/Mid Cap ETF31,5110,02%NYSE
RISNInspire Tactical Balanced ETF23,40-0,30%NYSE
VICEAdvisorShares Vice ETF28,3811,12%NYSE
BADB.A.D. ETF12,594,40%NYSE
VICEXUSA Mutuals Vice Fund23,666,39%Nasdaq
BJKVanEck Gaming ETF44,1927,76%Nasdaq
STXEStrive Emerging Markets Ex-China26,38**NYSE
STXDStrive 1000 Dividend Growth ETF26,96**Nasdaq
STXGStrive 1000 Growth ETF30,73**Nasdaq
STXVStrive 1000 Value ETF24,76**Nasdaq
STRVStrive 500 ETF27,90**NYSE
STXKStrive Small-Cap ETF26,08**Nasdaq
DRLLStrive U.S. Energy ETF26,85**NYSE
SHOCStrive U.S. Semiconductor ETF34,03**NYSE
** não completou um ano

Fonte: Yahoo Finance e Morningstar. Data de referência: 28/06/2023.

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