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Por que as montadoras estão parando suas operações

Pode apostar que, se nada mudar, novas paralisações (e de novas marcas) irão ocorrer
Por  Raphael Galante
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Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do dragão e tigre ou de seus controladores

Caros leitores, digníssimas leitoras,

No sempre tumultuado setor automotivo brasileiro, a novidade da semana é de que grande parte das montadoras pararam suas operações fabris.

Temos de tudo: Stellantis, Hyundai, GM, Mercedes Benz e por aí afora.

A grande pergunta que todos fazemos é: por qual motivo elas estão parando as suas operações e abrindo os famigerados PDVs (Plano de Demissão Voluntária)?

As vendas de veículos neste primeiro bimestre cresceram mais de 5% e devemos encerrar o primeiro trimestre com evolução de uns 10%.

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Então, na real, qual é o caroço desse angu?

Bom, caros leitores, vamos trazer alguns fatos para entender melhor esse “paranauê”:

– Crescimento de mentirinha:

Um dos principais pontos é que o crescimento nas vendas deste primeiro trimestre é, digamos, “de mentirinha”. O primeiro trimestre do ano passado foi horrível! Aí, sair de 1 para 2 gerando um crescimento de 100% é só para inglês ver! O ponto aqui é que não existe no curto prazo um cenário de melhora da atividade econômica. Todas as empresas, pelo menos as mais sérias, estão apostando que o mercado neste ano terá um resultado do tipo “zero-a-zero”, no melhor cenário, com viés de queda nas vendas, de acordo com a maioria das projeções.

– O crédito sumiu e o consumidor também:

Se a atividade econômica não está ajudando, os bancos estão colocando ainda mais água no chopp da galera! Nos últimos anos, o crédito para financiamento de veículos foi embora – e sem previsão de volta.

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Além disso, a taxa atual de juros de financiamento ao consumidor voltou ao patamar de 2016. Então, temos uma tempestade perfeita formada! Nos últimos seis-sete anos, o brasileiro médio perdeu uns 30% da sua renda (o PIB per capita em 2017 foi US$ 9,6 mil, contra US$ 7,2 mil em 2022); a concessão de crédito minguou; as taxas de juros atuais são iguais a de 2016 e, se bobear, o preço do carro básico deve ter quase dobrado de valor. Ou seja, não tem como dar certo!

PRINCIPAL MOTIVO: Custo financeiro!

Mas o motivo principal desta paralisação é o custo financeiro que as montadoras estão tendo. Mas como assim? Simples: desde meados de 2020 até o final do ano passado, as montadoras passaram a operar com estoque mínimo. E, com isso, o custo financeiro de manutenção desse carro em estoque, seja no pátio da fábrica e/ou concessionários, era “praticamente” irrisório.

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Em dezembro de 2020, por exemplo, existiam carros em estoque para apenas 12 dias de vendas. Lógico que naquele período existia toda a questão da falta de peças e componentes eletrônicos, além de uma maior demanda por veículos. Esse era o mundo perfeito dos CFOs das montadoras. Mas aí o mercado virou…

No final de fevereiro de 2023, o estoque de carros era para mais de 40 dias de vendas. Isso quer dizer que, quando acabou o mês, o presidente da montadora deu uma olhada no seu pátio e pensou: “caraca, se eu não produzir mais nenhum carro este mês, eu tenho produto suficiente para atender toda a demanda de março, mais 10 dias de abril”. Sem falar que, provavelmente, os CFOs deviam estar com taquicardia vendo o aumento dos estoques!

Sente o drama:

Vamos fazer aquela nossa conta de “padoca”?

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Em fevereiro, havia mais ou menos 190 mil carros em estoque. Se a gente considerar um valor médio de R$ 100 mil por veículo, havia R$ 19 bilhões em veículos nos pátios das montadoras e concessionárias. Vamos imaginar um custo financeiro de 1,5% a.m. (é mais) para rodar esse estoque? Logo, o custo financeiro para manutenção do estoque desses veículos era de R$ 285 milhões/mês. Os bancos agradecem!

Ou seja, não tinha mais como continuar do jeito que estava. Quando o estoque bateu a casa de 40 dias (e aumentando), soou o alarme em toda cadeia: se a demanda de veículos está em modo letárgico, é preciso parar urgentemente a produção. E pode apostar que, se nada mudar, novas paralisações (e de novas marcas) irão ocorrer!

Raphael Galante Economista, atua no setor automotivo há mais de 20 anos e é sócio da Oikonomia Consultoria Automotiva

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