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O cenário do mercado de crédito um ano após o caso Americanas

As repercussões atingiram outras grandes empresas e paralisaram o mercado de capitais – mas a acomodação do mercado já aconteceu
Por  Evandro Buccini -
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Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do dragão e tigre ou de seus controladores

Oúltimo artigo sobre crédito que escrevi neste espaço foi há 12 meses, logo após a explosão do escândalo na Americanas. As repercussões atingiram outras grandes empresas, como a Light, e paralisaram o mercado de capitais por meses. A investigação dos fatos segue a sua velocidade, mas a acomodação do mercado já aconteceu. As novas emissões de dívidas voltaram no segundo semestre de 2023, mas o fluxo de captação dos fundos de renda fixa que compram esses instrumentos ainda está aquém de outros períodos similares no passado.

O ano de 2023 começou pujante para as emissões de debentures, com mais do que o dobro de volume em janeiro do que no mesmo mês de 2022. De acordo com a Anbima, em fevereiro de 2023, as emissões caíram para R$ 6,6 bilhões, queda de mais de 70% na comparação com o ano anterior e com resultado próximo ao da pandemia de Covid em 2020. Março, abril, maio e junho tiveram queda superior a 50%, com o volume se recuperando em junho, que ficou próximo a 2022. Os empréstimos bancários não tiveram contração e evitaram uma crise de crédito generalizado. No segundo semestre, a recuperação do mercado de capitais teve ajuda das debentures incentivadas.

O ambiente de juros elevados, com a paralisação do mercado de capitais, prejudicou empresas que estavam alavancadas, precisando de refinanciamento no curto prazo ou com dificuldades operacionais. Algumas, com todos esses quesitos combinados. Logo após a Americanas, a Light teve problemas que levaram a uma recuperação judicial muito contestada, a Oi e Azul tiveram volatilidade nas suas debentures e empresas menores, como a Sequoia, precisaram de capitalização e reestruturação da dívida.

Uma parte relevante dessas debentures são detidas por fundos de investimento. Somados, todos os fundos do Brasil têm mais de R$ 8 trilhões e pelo segundo ano consecutivo, eles tiveram mais resgates do que captações. A maior categoria e mais relevante para o assunto é a de Renda Fixa, com R$ 3,1 trilhões e, em 2023, investidores resgataram quase R$ 60 bilhões com a volatilidade não usual, depois dos eventos de crédito durante o ano. Os fundos de duração livre grau de investimento, que são grandes compradores de crédito, tiveram rentabilidade média de 12,42%, contra mais de 13% do CDI. A diferença é muito pequena e mostra como a maior parte dos fundos foi bem-sucedida em mitigar os problemas, normalmente por meio da pulverização das suas posições.

Em janeiro, o índice de debentures atreladas ao CDI da Anbima chegou a cair mais de 1% e demorou três meses para retomar o mesmo patamar. O mercado secundário foi mais eficiente do que durante a crise gerada pelo Covid, já que vários compradores mais exigentes com taxa, como tesouraria de bancos e fundos com maior apetite a risco, estavam prontos para comprar títulos com forte reprecificação. Dentro dos fundos de investimentos, os administradores e custodiantes foram ágeis, na maior parte dos casos, em atualizar o preço dos ativos para evitar transferência de riqueza entre cotistas entrando e saindo. Isso pode ser mais doloroso num primeiro momento, pois causou fortes movimentos de queda de preço de cotas de fundos, mas é o ideal.

Os spreads de crédito, parcela adicional ao CDI que uma empresa paga para emitir uma dívida, ainda não retornaram ao patamar anterior ao da crise causada por Americanas. Mesmo desconsiderando os títulos da varejista e da Light, as debentures CDI ainda têm taxas maiores hoje do que no começo de 2023, com exceção das empresas de maior qualidade. As debentures incentivadas, com esse mesmo ajuste, já estão com spreads menores.

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O pico do ciclo de política monetária, no nível que chegou, já é um ambiente em que algumas empresas têm problemas, mas o caos que Americanas provocou teve repercussões para o financiamento de todas as empresas por um período. Alguns indicadores já retornaram ao nível anterior ao evento, mas os spreads de crédito da maior parte das empresas ainda estão acima, e devem continuar caindo com o maior apetite a risco dos investidores com a queda da taxa de juros e com a captação dos fundos de Renda Fixa.

Depois desse hiato de 12 meses, o próximo artigo também será sobre crédito, após as mudanças que o conselho monetário nacional impôs nas emissões de CRIs e CRAs.

Evandro Buccini Sócio e diretor de gestão de Crédito e Multimercado da Rio Bravo

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