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Estamos caminhando para a fusão entre moeda e juros?

Com a tokenização da moeda, isso pode acontecer mais cedo do que esperamos. Mas como será? Quem ganhará e/ou perderá? O que mudará?
Por  Gustavo Cunha -
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Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do dragão e tigre ou de seus controladores

A tecnologia atual permite que funções da moeda, como as conhecemos hoje – meio de troca, reserva de valor e unidade de conta – não precisem mais ser totalmente segregadas para que elas sejam cumpridas. Isso pode trazer uma enorme transformação em todo o sistema financeiro mundial. Explico.

À medida que as moedas são representadas em blockchains (ou, usando um termo que está mais na moda, “tokenizadas”), o uso de um determinado token representativo dessa moeda que incorra em juros para o dia a dia é uma alternativa que aparece e muda muito a estrutura e alocação de recursos.

Para exemplificar, nada melhor do que um exemplo inovador e já consolidado no mundo das criptomoedas. A LIDO Finance, que hoje é a maior plataforma de staking de Ethereum, emite para cada depositante que coloque ETH em staking por meio de sua plataforma, outro token chamado stETH, que pode ser usado livremente na plataforma Ethereum.

Fazendo um paralelo simples com o mercado financeiro tradicional, é mais ou menos como se investíssemos em um fundo em reais (BRL) e esse fundo emitisse cotas (chamarei de cotaBRL) que poderiam ser negociadas livremente no mercado, servindo inclusive para pagar a conta no supermercado ou comprar um carro, por exemplo.

Esse novo token (cotaBRL) seria uma nova moeda? Qual o risco sistêmico e de crédito que ele carregaria?

Continuando com o stETH, ele é um token que é aceito em praticamente todas as plataformas de DEFI, assim como o ETH. A diferença é que, pelo mecanismo da LIDO, esse token stETH tem uma rentabilidade atrelada a ele que vem da função que o staking de ETH provê, ou seja, garantir a rede. Aqui, o risco do staking pode ser entendido como o próprio risco da rede, já que se tivermos problemas com a blockchain da Ethereum, os ETH em staking estarão no topo da fila para responder por eles.

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Uma coisa que o stETH ainda não consegue cumprir (destaque para o “ainda”) é a função de pagamento das taxas de utilização da blockchain da Ethereum, mas com a abstração de contas, é uma questão de tempo até termos tal funcionalidade. Nesse sentido, em um futuro muito próximo, é possível que a imensa maioria dos ETH esteja depositada em staking em plataformas como a LIDO, e que a “moeda” de transação na rede Ethereum, possivelmente, passe a ser tokens similares ao stETH e não mais o ETH em si.

Voltando ao mercado financeiro tradicional, imagine agora um fundo administrado pelo Tesouro Nacional do Brasil, composto única e exclusivamente por seus títulos, no qual você consegue depositar Reais (BRL) e, em troca, recebe um token representativo da cota (TesBRL) que pode interagir livremente em uma rede de blockchain disponibilizada e regulada pelo Banco Central do Brasil (já ouviu falar do DREX? 🤔).

Com o TesBRL, você poderia pagar um café, fazer compras no supermercado, comprar um imóvel, visto que ele seria amplamente aceito. Conseguiu visualizar?

Nesse cenário, tudo seria trocado por TesBRL e não mais BRL, a nossa moeda. Em termos econômicos, a TesBRL seria um passivo do Tesouro Nacional e não do BCB. E é a partir daqui que as dúvidas e perguntas se acumulam.

O Tesouro Nacional estaria emitindo diretamente moeda? Mas essa não é a função do BCB? Como separar essas duas entidades? Seria isso ainda necessário ou a tecnologia tornou essa divisão obsoleta? Como ficam as políticas monetária e fiscal? Tudo junto e misturado?

Outro aspecto dessa discussão diz respeito à enorme receita que todos os BCs incorrem por conta do monopólio da emissão de moeda, conhecido como senhoriagem no mundo econômico. Em termos simples, é a diferença entre o custo de emitir R$ 50,00 (irrisório) e o valor de face do que foi emitido. O Tesouro, em algum momento, seria capaz de emitir TesBRL sem juros e se apropriar de toda a senhoriagem referente a isso, assim como o BCB faz com o BRL?

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São perguntas para os economistas responderem do ponto de vista teórico atualmente e muito provavelmente na prática nos próximos anos.

Já li alguns artigos sobre a possibilidade de termos uma CBDC de varejo que incorra em juros, e até onde conheço, esse não é o caminho de nenhum dos projetos dos BCs atualmente, principalmente pela possibilidade de disrupção do sistema financeiro atual, que é baseado em moeda fracionária e nas funções dos agentes bancários.

Um acesso digital direto da população ao Banco Central já é um tema muito discutido, mas se o BC ainda pagar juros sobre ele, isso levanta a questão de por que precisaríamos de bancos? O problema é que as funções que os bancos desempenham hoje (gestão de contas, empréstimos etc.) teriam que passar para os BCs, o que ninguém acredita que seja o caminho atualmente.

Mas o ponto que levanto aqui é outro. Não se trata de uma CBDC de varejo que pague juros. É a tokenização de um título do Tesouro que servirá como meio de pagamento, unidade de conta e reserva de valor, ou seja, moeda. Será o Tesouro o principal concorrente dos Bancos Centrais na questão da emissão de moedas? Muito mais do que os atuais projetos que tokenizam a moeda via stablecoins ou via a tokenização privada de títulos públicos? Estariam os BCs dormindo com o inimigo?

Pois é. Um texto com mais dúvidas do que respostas! Do tipo que adoro! 😉 E para continuar, nada melhor do que juntar uma turma de especialistas nesse assunto. Venha conosco continuar essa discussão na 11ª edição do Money Innovation da FinTrender na próxima segunda-feira (11).

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Gustavo Cunha Autor do livro A tokenização do Dinheiro, fundador da Fintrender.com, profissional com mais de 20 anos de atuação no mercado financeiro tradicional, tendo sido diretor do Rabobank no Brasil e mais de oito anos de atuação em inovação (majoritariamente cripto e blockchain)

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