dragão e tigre - Walter Maciel - Coluna - dragão e tigrehttps://www.coupondealsclub.com/colunistas/walter-maciel/Notícias, ações e muito mais sobre investimentos. Informação que vale dinheiro.Thu, 19 Oct 2023 17:04:03 +0000pt-BR hourly 1 https://wordpress.org/?v=6.4.3https://www.coupondealsclub.com/wp-content/uploads/2019/10/IM-Favicon.png?fit=32%2C32&quality=70&strip=alldragão e tigre - Walter Maciel - Coluna - dragão e tigrehttps://www.coupondealsclub.com/colunistas/walter-maciel/3232dragão e tigre - Walter Maciel - Coluna - dragão e tigrehttps://www.coupondealsclub.com/colunistas/walter-maciel/o-caminho-do-ciclo-virtuoso-brasileiro/Thu, 19 Oct 2023 17:00:05 +0000https://www.coupondealsclub.com/?post_type=colunistas&p=2269677Economia brasileiraPor que não manter a agenda que pode levar o Brasil a um ciclo virtuoso ao longo desta década?

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É surpreendente a recorrência de erros nas projeções econômicas para o Brasil nos últimos três anos. Durante esse período, as projeções do Relatório Focus, divulgadas no início de cada ano para o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, ficaram em média 3 pontos percentuais abaixo dos resultados efetivamente alcançados.

No início deste ano, economistas previam um crescimento econômico entre 0% e 0,5%. No primeiro semestre, o PIB acumulou um aumento de 3,7%. As revisões já começaram, com o Bank of America, por exemplo, agora estimando um crescimento de 3% para 2023 e revisando para cima as previsões para o PIB de 2024, projetando um aumento de 2,2%.

No ano passado, as projeções iniciais apontavam que a relação Dívida/PIB alcançaria 95%, mas no final do ano, ficou em 75%, uma discrepância notável de 20 pontos percentuais.

Não cabe aqui um pedido de desculpas – até porque o mercado não faz mea culpa e raramente reconhece seus erros, optando por simplesmente ajustar as suas projeções.

Será que não passou da hora de pararmos, analisarmos e entendermos o que está errado? O porquê desses erros grosseiros, praticamente homogêneos e sempre para o mesmo lado (negativo)?

Será que já não está evidente que os modelos econométricos de sempre aplicados ao Brasil estão equivocados e precisam ser atualizados? O que será que eles estão deixando de observar?

Eu tenho as minhas hipóteses para contribuir com esse debate, e algumas delas parecem ser bastante óbvias. Acredito que este exercício pode indicar que o Brasil está entrando em um ciclo fortemente virtuoso.

Primeiramente, parece-me que as projeções econômicas não estão capturando completamente os ganhos de produtividade resultantes das reformas estruturais implementadas no Brasil desde o governo Temer (agosto de 2016 a 2018). Isso inclui a Reforma Trabalhista, a Reforma Previdenciária, os novos Marcos Regulatórios (para o setor de gás, saneamento, portos, ferrovias, garantias, entre outros), a privatização da Eletrobras, a independência do Banco Central, e assim por diante.

Não podemos esquecer o fato de que o Banco Central aumentou a taxa básica de juros no Brasil de 2% para 13,75% e conseguiu levar a inflação de volta em direção à meta em um período de apenas dois anos, e isso ocorreu durante um ciclo eleitoral. Isso é coisa de país civilizado. Diferentemente das economias mais desenvolvidas dos Estados Unidos e da Europa, a inflação no Brasil já está abaixo do limite superior e demonstra tendência de convergir para o centro da meta.

Além das reformas estruturais, o desempenho excepcional do setor agrícola está se tornando um fenômeno que está transformando o cenário das contas externas do país. Em conjunto com o agronegócio, nos próximos 4-5 anos, prevemos um aumento significativo na produção do pré-sal, o que tornará o Brasil um grande acumulador de divisas estrangeiras. Isso não beneficia apenas a moeda brasileira.

O primeiro impacto positivo é sentido pelos exportadores, que posteriormente aumentam os níveis de consumo local e investem em novas cadeias de produção, realizam aquisições e transformam a dinâmica local, difundindo a renda em termos regionais e, posteriormente, em todo o país.

E, por fim, chegamos a um ponto crítico nesta discussão.

Nós convivemos nos séculos 20 e 21 com governos perdulários, que absorveram todos os recursos disponíveis no mercado, pagando juros altos, espremendo a iniciativa privada e tornando o acesso ao crédito extremamente custoso e difícil. Isso, por sua vez, levou a um fenômeno conhecido como “crowding out”, no qual o aumento dos gastos públicos é acompanhado pela redução dos investimentos privados.

No entanto, quando analisamos a transformação estrutural do Brasil nos últimos 5-6 anos, é evidente que estamos vivenciando um aumento dos investimentos privados no país. Isso se tornou possível devido à redução da participação estatal na economia, o que abriu espaço para o setor privado e para o mercado de capitais. Como resultado, o custo de captação para as empresas diminuiu, possibilitando o surgimento de centenas de fundos de infraestrutura, imobiliários e FIAGROS.

Todos esses fatores representam mudanças estruturais que, em minha opinião, não estão sendo adequadamente consideradas pelos economistas em suas projeções.

E, a partir desse contexto, vejo um novo caminho para o Brasil.

Se o nosso governo atual estiver atento a esse cenário, poderá levar essa agenda ainda mais adiante, o que resultaria em um Brasil seguindo uma trajetória positiva.

Por exemplo, a recente proposta de arcabouço fiscal buscada pelo Ministro Fernando Haddad, embora possa não ser perfeita, representa uma surpresa positiva. A proposta prevê que o teto de gastos atual permita um crescimento real da despesa primária entre 0,6% e 2,5% ao ano. Ao analisarmos o histórico do PT em nível federal, é uma mudança radical de postura.

O primeiro Governo Lula (2003-2006) gastou 6% ao ano, em termos reais, em média; o segundo (2007-2010), gastou 10%, numa economia com crescimento muito forte. A ex-presidente Dilma chegou a irresponsáveis 4%, numa economia em recessão, o que deixou a dívida pública em trajetória desequilibrada. O Governo Temer, com o Teto de Gastos, ficou em 0,5%. Os anos de Bolsonaro fecharam com uma média de 2,9%.

No entanto, é importante questionar se o arcabouço fiscal será totalmente implementado. Se as metas propostas forem alcançadas, isso sinalizará um compromisso do governo em estabilizar a dívida pública. Além disso, o arcabouço fiscal não deve se limitar apenas a aumentar a receita, mas também a conter os gastos, mantendo-os próximos ao padrão de crescimento real após o governo Temer, em torno de 2%.

Portanto, o governo pode dar um passo significativo adiante se ampliar o foco da busca pelo equilíbrio fiscal para a contenção de despesas, ao invés de se concentrar apenas no aumento de receita. Em alguns casos, como a tributação dos fundos exclusivos, o aumento de receita é compreensível. Já aumentar a carga tributária sobre o setor produtivo é contraproducente. Atacar apenas um lado da equação – o aumento da arrecadação, torna o caminho mais longo e mais duvidoso. A redução dos gastos públicos e/ou aumento da eficiência são fundamentais para atingirmos tal equilíbrio.

O governo do PT pode continuar focando em políticas sociais importantes, como o Bolsa Família – triplicamos os gastos com o Bolsa Família nos últimos anos, que saltou de 0,5% do PIB para algo em torno de 1,5% do PIB. Por conseguinte, há muito espaço para diminuição de pobreza, se fizermos esses recursos chegarem a quem realmente precisa.

Ao mesmo tempo, precisamos endereçar uma Reforma Administrativa que melhore a qualidade do serviço público e continue buscando a redução da ineficiência do Estado. Essa é uma tarefa desafiadora, que requer habilidade política, mas os benefícios para a população superariam as resistências corporativas.

Assim, por que não continuar nesse mesmo caminho e manter essa agenda que tem o potencial de levar o Brasil a um ciclo virtuoso relevante ao longo desta década?

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dragão e tigre - Walter Maciel - Coluna - dragão e tigrehttps://www.coupondealsclub.com/colunistas/walter-maciel/brasil-voo-de-galinha-ou-melhora-estrutural/Wed, 12 Jul 2023 14:44:14 +0000https://www.coupondealsclub.com/?post_type=colunistas&p=2185489Brasil economia brasileiraPodemos estar no início de um ciclo histórico e transformacional

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Em minha última coluna, escolhi um título um tanto arriscado: “Preparem-se para uma forte recuperação dos ativos de risco brasileiros”. Trata-se de uma visão estrutural de médio/longo prazo. O alto grau de convicção que me levou a este título foi fruto da proposta do Arcabouço Fiscal aprovada no Congresso, que minimiza drasticamente as chances de uma tão temida trajetória de explosão da dívida pública, especialmente pelo histórico dos outros quatro governos do PT, no que se refere aos gastos públicos.

Fonte: Tesouro Nacional e AZ Quest

A economia brasileira evoluiu dramaticamente nos últimos sete anos. A agenda de reformas microeconômicas, a Reforma da Previdência, o Teto de Gastos, a Reforma Trabalhista, a independência do Banco Central, os marcos do gás e do saneamento, a privatização da Eletrobrás e, especialmente, a boa administração do gasto público, trouxeram avanços institucionais, um importante aumento de produtividade e, não menos relevante, um processo inédito de crowding in. Essa nova realidade gerou um aprofundamento do mercado financeiro (financial deepening), tirando o monopólio do crédito privado da mão de quatro grandes bancos e permitindo a gestoras independentes levantar grandes volumes de recursos para financiar empresas e projetos em setores relevantes para a economia brasileira, como o de infraestrutura, agrícola e imobiliário (vide exemplo abaixo do crescimento do financiamento do agronegócio).

Fonte: Anbima

Em 2020, as previsões de PIB no final do 1º semestre apontavam para uma queda de 10% e, no final do ano, o número foi revisado para -3%. Em 2022, a previsão em janeiro era de -0,5% de PIB e acabamos crescendo mais de 3%. Agora, em janeiro de 2023, as previsões oscilavam entre 0% e 0,5% de crescimento do PIB e, no final do primeiro semestre, o consenso já era de um crescimento de mais de 2,5% no ano. As previsões de endividamento público tiveram erros da mesma consistência e magnitude. Os analistas de mercado vêm errando repetidamente e sempre para a mesma direção: subestimando o PIB nacional.

Desde o início de maio, o Ibovespa se valorizou em mais de 15%, o real sofreu significativa apreciação e o mercado de futuro de juros apresentou forte queda nas taxas, com fechamento das curvas. E a boa notícia: os ativos de risco brasileiros apresentam múltiplos historicamente baixos, com enorme espaço para valorização em direção à média histórica. O Banco Central (BC), covardemente atacado pelo governo, fez um trabalho excepcional e, ao contrário das grandes economias centrais e emergentes (inclusive os EUA e a Zona do Euro), conseguiu trazer a inflação de volta para abaixo do teto da meta e em franca convergência à meta.

O juro real médio pago pelos títulos brasileiros nos últimos 20 anos é de 3,8%. O BC estima que a taxa neutra hoje seria de 4,5%. Se o real não se apreciar muito, a inflação brasileira deve ficar entre 3,5% e 4% em 2024 (minha expectativa é que se aprecie, trazendo a inflação para níveis ainda mais baixos). Utilizando os 4,5% para esta projeção, poderíamos terminar 2024 com juros nominais entre 8 e 8,5%. Uma queda de 500 bps! Todas as vezes que esse movimento aconteceu trouxe consigo uma forte valorização dos ativos de risco e uma aceleração do crescimento econômico, o que acaba favorecendo uma reprecificação ainda maior destes mesmos ativos.

Mas será que a tendência é voltar para a média histórica ou assistiremos a uma era transformacional da economia brasileira, que elevará a renda per capita do Brasil e nos levará a um patamar acima no longo prazo? Minha suspeita é que estamos assistindo SIM ao início de um período de ruptura que mudará as condições econômicas do Brasil e que, por estar no começo, já apresenta fortes indícios, embora ainda não seja claramente percebido pelos analistas de mercado.

O Brasil se transformou na maior potência agrícola do mundo. Estamos acumulando saldos comerciais recordes seguidamente. O crescimento do superávit comercial brasileiro nos últimos anos é assimetricamente maior que todos os nossos vizinhos latino-americanos, que nossos pares emergentes e mesmo em relação à China. A produtividade do nosso agronegócio nos traz enormes vantagens comparativas, com a ajuda de um clima muito favorável e da enorme abundância de água e ocupando ainda uma parte relativamente pequena do território nacional, com bastante espaço para crescimento da produção. A tecnologia vai, inclusive, permitindo a produção de produtos de maior valor agregado, como hortifrúti granjeiros em regiões onde no passado não era possível o plantio – como exemplo: o norte de Minas e o sul da Bahia.

Diferentemente do ciclo de commodities metálicas do início do século XXI, em função do forte investimento chinês em infraestrutura, a tendência é muito mais estável e duradoura, menos exposta a ciclos. Uma vez endereçado o déficit de infraestrutura, os investimentos cessam, pois superinvestir tem retornos marginais exponencialmente decrescentes e deflacionários. Já os alimentos são bens essenciais e cada vez mais escassos num planeta com crise energética, escassez estrutural de água e conflitos geopolíticos que dificultam o comércio entre nações.

Em paralelo, o pré-sal começa a entrar na fase de crescimento acelerado de produção, neutralizando o risco de uma crise energética global atingir o Brasil e, potencialmente, nos posicionando com um dos maiores exportadores de petróleo do mundo no médio prazo.

É claro que temos vários problemas, que precisamos reindustrializar o país, o que demanda mão-de-obra especializada e qualificada. Precisamos melhorar a produtividade dos gastos em educação e formação técnica. Mas todos os países que passaram a ser grandes exportadores experimentaram uma transformação decorrente do acúmulo de moeda forte que acaba vazando para os demais setores. A captura da renda externa traz crescimento real da renda doméstica, da demanda agregada, impulsionando a economia local e criando um forte crescimento do mercado local de consumo, favorecendo o florescimento da indústria e do setor de serviços no país.

A aprovação do Arcabouço Fiscal, a provável aprovação da Reforma Tributária que, mesmo não sendo a ideal, é uma conquista que se almejava há mais de 30 anos, e um Congresso que representa fielmente uma população mais conservadora e de centro-direita, reduzem significativamente os riscos de desperdiçarmos esta oportunidade histórica.

Se este cenário se materializar, fica difícil prever o potencial de apreciação dos ativos de risco. Podemos estar no início de um ciclo histórico e transformacional.

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dragão e tigre - Walter Maciel - Coluna - dragão e tigrehttps://www.coupondealsclub.com/colunistas/walter-maciel/preparem-se-para-uma-forte-recuperacao-dos-ativos-de-risco-brasileiros/Wed, 24 May 2023 14:00:08 +0000https://www.coupondealsclub.com/?post_type=colunistas&p=2139663Foto de stock de Economia do Brasil melhora e volta ao normal após criseSe há algo que aprendi ao longo dos meus mais de 30 anos de carreira no mercado financeiro, é que os preços dos ativos de risco tendem a retornar à média – e atualmente estamos muito abaixo dessa média

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Nos meus dois artigos publicados neste espaço em 2023, procurei mostrar a grande oportunidade que se apresenta ao Brasil em um momento de reversão parcial da globalização e da perspectiva de preços de commodities sustentados no longo prazo, especialmente os soft commodities. Também destaquei o momento extremamente polarizado pelo qual passa a sociedade brasileira e a necessidade de o governo recém-eleito de buscar o centro, pacificando a sociedade com uma agenda que seja fiel à ampla base que o apoiou nas eleições, incluindo setores e pessoas notáveis que jamais votaram no PT no passado.

Outroassunto abordado foi a curiosa contradição entre as amplas acusações ao governo anterior de negacionismo e comportamento anticientífico em relação à pandemia e ao meio ambiente, e a atitude do novo governo, apoiado por setores da grande imprensa, de negar a ciência econômica e atacar o Banco Central (BC) por cumprir fielmente o seu papel legal de perseguir a meta de inflação determinada pelo CMN. É relevante mencionar que o BC elevou os juros de 2% para 13,75% em pleno ciclo eleitoral e está obtendo sucesso em impulsionar a convergência da inflação para a meta ao longo do horizonte relevante, que inclui a meta de 3,25% para 2023 e 3% para 2024.

Em contraste com as principais economias desenvolvidas e outros países emergentes, até 2022 o Brasil conseguiu reduzir a despesa primária como proporção do PIB e controlar a inflação. A literatura econômica e os exemplos históricos mostram de forma inequívoca que a disciplina fiscal e a inflação sob controle levam a um maior crescimento econômico de longo prazo, com menor taxa de desemprego estrutural e maior renda real da população. Estatísticas recentes também demonstram que o aumento do auxílio à população contribuiu para reduzir a desigualdade de renda no país, mesmo durante uma pandemia.

Para surpresa de muitos, inclusive do autor deste artigo, o início do novo governo foi marcado por um discurso fortemente direcionado à base de apoio ideológico e não à ampla coalizão de forças que foi responsável por sua eleição. Não faltaram críticas contundentes ao Banco Central, inclusive diretamente ao seu presidente, e ameaças de retrocesso em vários avanços institucionais conquistados pela sociedade nos últimos anos, com grande colaboração do Congresso.

A autonomia do Banco Central, a meta de inflação, o Marco do Saneamento, a privatização da Eletrobras, a Lei das Estatais, a política de preços da Petrobras, a possibilidade de o BNDES voltar a financiar projetos de retorno duvidoso e arriscado em países vizinhos (após exemplos recentes de fracasso) e até mesmo ataques diretos ao agronegócio (que tem sido o grande motor de crescimento da economia brasileira nos últimos dez anos) foram questionados e atacados constantemente. Além disso, a PEC que elevou em quase R$ 200 bilhões os gastos públicos também contribuiu para aumentar a incerteza em relação à trajetória da dívida pública, que é notoriamente nosso ponto fraco desde o desequilíbrio fiscal no período de 2011-2015.

O aumento da incerteza afeta diretamente o “Espírito Animal” (termo cunhado por Lord Keynes e mais recentemente discutido por Robert Shiller) dos empreendedores e investidores, reduzindo sua propensão a assumir riscos e investir na economia real.

Infelizmente, em meio a esse contexto de maior insegurança, ocorreram dois eventos corporativos envolvendo duas grandes empresas, Americanas e Light, que, embora não tenham sido sistemicamente relevantes, acabaram prejudicando o mercado de crédito privado, aumentando os spreads pagos pelas empresas. Isso ocorreu mesmo sem que a taxa Selic tivesse sofrido qualquer aumento e apesar do fechamento das taxas de juros negociadas no mercado futuro, que são as que realmente indicam o custo do dinheiro para todos os agentes econômicos.

Nos últimos anos, o crescimento significativo dos fundos de crédito privado tem disruptado um mercado que era dominado pelos grandes bancos, oferecendo às empresas novas fontes de financiamento com maior flexibilidade e taxas mais atrativas. O governo, a CVM e as agências reguladoras devem agir com firmeza para garantir mais segurança no mercado, especialmente para os pequenos investidores que possuem cotas nos fundos de crédito privado, a fim de garantir que esse mercado continue a crescer e reduza o custo de captação das empresas. Isso é muito mais importante do que a redução da taxa Selic, que tem sido uma obsessão por parte do governo.

Mesmo diante desse cenário e apesar do discurso populista e desconectado com uma vitória por margem tão estreita em uma eleição na qual 30% dos eleitores anularam o voto ou não compareceram às urnas, acredito que testemunharemos uma forte recuperação dos ativos de risco, que já começou há algumas semanas.

Apesar de todas as imperfeições de nossa democracia e da excessiva intervenção do Poder Judiciário, que invade não apenas a esfera privada, mas às vezes até mesmo as atribuições de outros poderes, gerando ainda mais insegurança jurídica, o Congresso Nacional hoje desempenha um papel moderador em relação ao Executivo.

A população brasileira passou por grandes transformações no século XXI, com uma contribuição significativa da grande recessão ocorrida durante o governo de Dilma Rousseff. Desde 2016, as eleições federais, estaduais e municipais gradualmente têm mudado o perfil dos congressistas de forma consistente. É algo inédito no Brasil desde a redemocratização ter um Congresso de maioria centro-direita, que tem contribuído fundamentalmente para a aprovação de leis e reformas que trouxeram grandes avanços ao país.

Nesse contexto, o governo tem enfrentado uma forte reação contrária a medidas que, nas palavras do presidente da Câmara, Arthur Lira, representam “retrocessos”. Propostas como a retirada da autonomia do Banco Central e a reestatização da Eletrobras foram prontamente rejeitadas pelos presidentes do Senado e da Câmara. Além disso, o decreto que reverteu o Marco do Saneamento, que nos últimos dois anos atraiu grandes investimentos privados para o setor pela primeira vez em décadas, foi imediatamente suspenso por uma margem impressionante de votos.

O Brasil se tornou uma potência agrícola e está prestes a se consolidar como um grande exportador de petróleo devido ao avanço da produção do Pré-Sal. Além disso, possui um dos maiores mercados locais de consumo e tem sido um exemplo no combate à inflação que afetou quase todas as economias relevantes do planeta. O país também possui um mercado de capitais bastante desenvolvido, que passou por uma democratização no acesso a produtos de qualidade e por financial deepening. Além disso, apresenta saldos comerciais crescentes e sustentáveis a longo prazo.

No entanto, nossa grande fragilidade é fiscal. A presidente Dilma assumiu o país com uma dívida equivalente a 50% do PIB e foi afastada deixando um legado de 70% com trajetória crescente e descontrolada. Apesar dos esforços de ajuste fiscal nos dois governos que a sucederam, nossa dívida ainda está vinte pontos percentuais acima da média de nossos pares emergentes. A solução dessa fragilidade seria o gatilho para uma forte reprecificação do risco Brasil.

O Teto de Gastos foi de extrema importância para controlar a dívida pública em um momento crítico de descontrole. No entanto, demonstrou-se menos efetivo durante períodos de maior crescimento econômico e excessivamente restritivo durante períodos de estagnação, o que comprometeu investimentos em setores essenciais como Educação e Saúde. Diante desse contexto, tornou-se necessário estabelecer um novo arcabouço para lidar com essa nova fase.

Apesar de suas limitações e imperfeições, o plano proposto pelo ministro Fernando Haddad nos surpreendeu positivamente. Caso o governo o siga rigorosamente, o novo arcabouço poderá reduzir significativamente as despesas, chegando a níveis muito abaixo da média observada nos outros quatro mandatos do PT e compatíveis com o período Bolsonaro. Isso seria suficiente para estabilizar a relação dívida/PIB nos próximos anos, com uma trajetória decrescente a longo prazo.

Aqui, o novo Congresso desempenha um papel importante ao propor uma série de medidas que fortalecem a aplicação e as penalidades ao governo caso as metas de gastos sejam desrespeitadas. Embora o novo plano seja menos rígido que o Teto de Gastos, é importante ressaltar que o Legislativo terá a palavra final sobre o Orçamento, as metas fiscais e o contingenciamento de despesas. Esse poder moderador, com a atual composição do Congresso, nos leva a crer que o mercado gradualmente reconhecerá uma substancial melhora na situação fiscal.

Essa mudança de percepção e confiança teria um grande impacto nos preços dos ativos e resultaria em uma significativa redução da taxa Selic, que atualmente está em níveis elevados para reforçar o processo de ancoragem das expectativas. A média dos juros reais sobre a dívida bruta do Brasil nos últimos 20 anos, um período economicamente turbulento, foi de 3,8%. Considerando que, devido ao nível atual do endividamento, o mercado exigiria um prêmio um pouco maior, por exemplo, 5%, as taxas de juros de longo prazo (atualmente em torno de 12%) poderiam chegar a cerca de 9% até o final de 2024.

Claramente, há um grande prêmio a ser capturado nos juros futuros e nos títulos do Tesouro Nacional indexados à inflação (NTN-Bs). Além disso, o real se beneficiaria, considerando que nos últimos três anos nossa moeda se desvalorizou em relação aos termos de troca. É possível imaginar facilmente uma taxa de câmbio em torno de 4,50. Os papéis de crédito high gradeapresentamspreads sem precedentes, maiores do que no auge da pandemia, e devem passar por uma significativa reprecificação. Não devemos esquecer também da renda variável. As ações da grande maioria das empresas brasileiras estão sendo negociadas com múltiplos mais baixos desde 2002 e devem se beneficiar com a redução da taxa de desconto.

Se há algo que aprendi ao longo dos meus mais de 30 anos de carreira no mercado financeiro, é que os preços dos ativos de risco tendem a retornar à média – e atualmente estamos muito abaixo dessa média. Além disso, em momentos de profundo pessimismo, devemos estar dispostos a assumir mais riscos, assim como devemos ser capazes de realizar ganhos nos momentos de euforia (embora isso seja ainda mais difícil). Agora que os riscos parecem estar se dissipando, é hora de sair de investimentos como CDBs e LFTs e aumentar a exposição à renda variável, crédito privado e a fundos multimercados (que estejam alinhados com o cenário correto), sem esquecer dos produtos estruturados lastreados em CDI+.

O investidor que decidir esperar até que esse cenário de melhora se torne consenso corre o risco de entrar no mercado “no final da festa”, quando os ativos já estarão muito valorizados.

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dragão e tigre - Walter Maciel - Coluna - dragão e tigrehttps://www.coupondealsclub.com/colunistas/walter-maciel/o-necessario-respeito-a-ciencia-economica/Wed, 15 Feb 2023 13:00:23 +0000https://www.coupondealsclub.com/?post_type=colunistas&p=2057167Ciência Econômica, Economia, Mercados, caminhoA longa experiência internacional, que criou protocolos e mereceu prêmios Nobel, aponta claramente o caminho a ser adotado no Brasil

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Depois da eleição mais disputada e agressiva de nossa história, o presidente Lula foi eleito por uma margem bastante estreita. Foi decisivo para sua vitória o apoio de setores que historicamente não são alinhados ao PT e que, em diversas ocasiões, apoiaram seus adversários em outros ciclos eleitorais.

É natural, portanto, o anseio de todos que apoiaram a candidatura de Lula para que o governo implemente uma política plural, que procure pacificar a sociedade brasileira, trazer convergência e reduzir a polarização que nos divide e dificulta o debate político.

Esperamos que o governo possa combater a enorme desigualdade que nos assola, trazendo crescimento econômico, prosperidade e dignidade para a população brasileira.

Não é segredo que, apesar dos esforços para combater a pandemia, zelar pelas contas públicas e fazer o Brasil voltar a crescer nos últimos anos, faltaram investimentos cruciais para a educação e saúde. Essas mazelas precisam ser erradicadas e devemos voltar a ter uma política social inclusiva e progressiva.

O governo anterior foi, corretamente, alvo de críticas contundentes durante a pandemia por negacionismo e desrespeito à ciência, como na resistência ao uso de máscaras, ao distanciamento social, não se empenhar preventivamente para potencializar ao máximo a vacinação e pela promoção de tratamentos não comprovados contra a Covid-19.

No entanto, discursos recentes do presidente também vêm dando sinais alarmantes de investir contra a ciência, com efeitos potencialmente nefastos para a população. No caso, a Ciência Econômica nos fornece farta base de dados que comprova que perseguir inflação controlada promove maior crescimento econômico, menor nível de desemprego e maior renda para todos, especialmente para as camadas de mais baixa renda de nossa sociedade.

Todas as nações que se tornaram potências econômicas possuem um traço em comum: políticas de Estado. São aquelas agendas que independem do governo de ocasião e que são perseguidas por todos, independentemente de sua inclinação ideológica. Arcabouço macroeconômico, política externa, política industrial, solidez institucional e harmonia entre os poderes são valores seculares que visam o bem comum.

Infelizmente, no Brasil, temos o costume de ver, com a saudável alternância de poderes, o risco indesejável de descontinuar a agenda anterior e até a reversão do que é percebido pela grande maioria como avanços sociais e institucionais.

Talvez, a grande exceção tenha sido o programa de renda básica iniciado por FHC e que permaneceu nos últimos 30 anos com grande sucesso, apesar da tentativa de apropriação política, inclusive com alternância do nome do programa.

É nesse contexto que se dá o recente embate com o Banco Central. O BC reagiu, em seu mais recente comunicado, ao grande aumento de gastos em função da aprovação da PEC do Estouro e ao risco de descontrole fiscal. O BC também manifestou que aguarda a materialização dos esforços do ministro da Fazenda e da ministra do Planejamento para encontrar receitas novas ou reduzir outras despesas para que possamos retornar a uma trajetória sustentável que permita à autoridade monetária começar a discutir o início do ciclo de queda dos juros.

Como argumentei em minha coluna de estreia, o governo tem um cenário internacional ainda favorável, com a expectativa de estímulos à economia chinesa mantendo os preços de commodities em níveis sustentados. EUA e Europa ainda têm um longo trabalho para reduzir a inflação, e nossos pares emergentes, com exceção do México, estão em situação difícil ou mesmo “ininvestíveis”, como o Leste Europeu e a Rússia.

Enquanto isso, nosso Banco Central saiu na frente, elevou os juros antes de todos os outros bancos centrais, inclusive em um ano eleitoral (e, digno de nota, sem pressões do governo vigente). O resultado foi o Brasil crescer mais e ter inflação menor que EUA e Europa em 2021, uma combinação sem precedentes.

Um desfecho extremamente favorável, que baixará a inflação, antecipará o início da queda dos juros, permitirá maior crescimento, trará investimentos locais e estrangeiros com efeitos diretos em aumento do nível de emprego, renda real e redução da pobreza, ainda é possível e depende exclusivamente das ações do governo federal.

Desnecessário lembrar que, nesse caso, a popularidade presidencial se elevaria substancialmente, dando mais espaço para que o presidente implante sua agenda com sucesso.

Para que isso aconteça, é necessário enfrentar a grande preocupação do Banco Central, dos empresários, agentes econômicos e investidores: voltar a colocar a nossa dívida em trajetória sustentável, de preferência sinalizando uma queda da dívida/PIB até o final de 2026.

O receio da dívida sair de controle foi responsável pela desvalorização do Real, pela curva futura de juros até 2031 acima de 13%, pela queda generalizada do valor das empresas brasileiras, afugentando investimentos e impedindo o BC de ser mais otimista com a convergência da inflação à meta.

Claro que outros sinais de involução institucional também atrapalham, como querer rever a independência do BC, flexibilizar a lei de estatais, rever a reforma trabalhista, reestatizar a Eletrobrás e outras propostas pouco razoáveis.

Felizmente, as recentes reeleições no Congresso mostram que quaisquer dessas propostas, se vierem a plenário, não passarão ou sofrerão alterações significativas durante o seu trâmite.

Por último, aponto para o risco das políticas parafiscais que reduzem a efetividade da política monetária e podem, também, sabotar a queda dos juros.

O período 2011-2016 foi riquíssimo em lições do que não se deve fazer e do custo imposto à toda a sociedade brasileira, em especial à população mais pobre. Que sirva de alerta.

Quando o presidente teve problemas de saúde, que são de conhecimento público, ele não recorreu a curandeiros e nem a profissionais de saúde pouco renomados ou com protocolos heterodoxos de tratamento. Ele se tratou no hospital Sírio-Libanês, um dos mais bem sucedidos e respeitados centros de saúde do Brasil e do mundo, e foi atendido por uma equipe chefiada por um profissional de grande sucesso do setor privado, o doutor Roberto Kalil Filho. O resultado foi excepcional e o presidente está com saúde e viajando país afora.

Presidente, todos os brasileiros de boa-fé querem o bem do Brasil e torcem para o sucesso de seu governo. O mercado vai adorar um ambiente de dólar fraco, chuva de investimentos, Bolsa bombando e juros baixos. Na verdade, rezamos todos os dias para que isso aconteça.

Ao cuidar da saúde da economia brasileira, use o mesmo critério que utilizou para tratar de sua saúde. A longa experiência internacional, que criou protocolos e mereceu prêmios Nobel, aponta claramente o caminho a ser adotado. Eu lhe garanto, o resultado é certo. Todos ganharão e o senhor será um dos maiores beneficiados.

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dragão e tigre - Walter Maciel - Coluna - dragão e tigrehttps://www.coupondealsclub.com/colunistas/walter-maciel/a-faca-e-o-queijo-na-mao-para-a-ordem-e-o-progresso/Wed, 18 Jan 2023 12:00:29 +0000https://www.coupondealsclub.com/?post_type=colunistas&p=2033276ações mercados alta baixa índices gráficos quedaO Brasil reúne as condições para se sair bem em um momento de incerteza global, mas demanda que o presidente Lula não abandone os princípios de boa política econômica

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O ano de 2023 começou a pleno vapor, mas fica a sensação de que 2022 não terminou. A sociedade brasileira permanece bastante polarizada e dividida. Os ventos que sopraram em 2013 permanecem e as nuvens no céu estão carregadas.

Por isso, os preços dos ativos de risco permanecem bastante pressionados e, apesar do valuation extremamente atrativo das boas empresas listadas na Bolsa, do real e dos títulos públicos prefixados e pós-fixados, não temos assistido a uma enxurrada de investimentos estrangeiros, nem a um rebalanceamento importante das carteiras de investidores institucionais. Fundos de investimento e pessoas físicas permanecem concentrados na renda fixa e em crédito privado high grade.

O Brasil tem uma oportunidade de ouro de atrair capital externo. Europa e Estados Unidos lutam para trazer a inflação para as metas de seus bancos centrais. Nos EUA, empregos foram criados, mas a taxa de participação da população economicamente ativa não dá sinais de retornar aos níveis pré-pandemia. E na Europa, existe a necessidade de expansão fiscal para criar uma nova matriz energética que torne o continente independente do suprimento de energia da Rússia.

É verdade que boa parte do surto inflacionário global teve como gatilho os gargalos de oferta e frete criados durante os lockdowns decorrentes da pandemia. E que, com o tempo, estes gargalos vão se dissipando. Mas as particularidades locais devem manter estes dois grandes blocos geográficos pressionados e com taxa de juros superiores àquelas de equilíbrio por um bom tempo.

A guerra da Rússia com a Ucrânia também contribui para colocar mais pressão na inflação global e na geopolítica. A carência de equipamentos médicos – como ventiladores, seringas e máscaras nos EUA – durante a pandemia já eram um aviso, mas o conflito no Leste Europeu ratificou a convicção de que teremos uma reversão parcial da globalização por motivos geopolíticos.

É claro que parte da fabricação de produtos essenciais terá que se deslocar para o hemisfério ocidental. Tudo isso contribuirá para uma inflação estrutural global mais elevada nas próximas décadas do que no período entre 1990 e 2020. No Ocidente, o custo de mão de obra e de produção é mais elevado.

A boa notícia em 2023 pode vir da China. Se, por um lado, é inequívoco que o regime tornou-se ainda mais autoritário e perigoso na área da política externa (Hong Kong, Taiwan e redondezas), por outro a revolta da população com os lockdowns extensos e intermináveis e algumas manifestações pró-democracia sinalizam que o governo deve voltar a estimular a economia para acalmar os ânimos. Isto deve contribuir para um crescimento mais elevado, estimulando o PIB global e sustentando o preço do petróleo e das commodities agrícolas.

No entanto, a falta de segurança jurídica e a face mais autoritária afugentam investimentos na China. A Rússia e boa parte do Leste Europeu se tornaram “não investíveis”. Nossos pares emergentes também passam por um mau momento. Notadamente, Turquia, África do Sul e nossos vizinhos sul-americanos sofreram uma significativa piora de governança e deterioração de sua política econômica e condições políticas.

Este quadro apontaria para dois grandes beneficiários, dois vencedores, no cenário internacional: o México, que, pela proximidade com os EUA e o baixo custo relativo de produção industrial, receberá novos investimentos para substituir parte da produção da Ásia e do Leste Europeu; e o Brasil.

Creio que o Brasil se encontra em uma posição única. Tudo conspira a favor. Somos o celeiro de um mundo que se encontra em um cenário de escassez de alimentos de longo prazo.

No meio de uma grave crise energética, somos autossuficientes em petróleo, e a produção do pré-sal deve crescer de forma acelerada nos próximos anos, nos tornando um importante exportador no cenário global. Além disso, temos uma matriz predominantemente hidroelétrica, as chuvas têm contribuído para a bandeira verde ao longo de 2023 e temos enorme potencial para energia limpa e renovável. Temos a maior floresta do mundo e podemos ser referência na proteção ambiental.

Voltemos então ao início. Por que, então, não estamos assistindo a uma enxurrada de investimentos locais e internacionais em nossos ativos de risco? A reposta é, paradoxalmente, complexa e bastante simples.

Em 2013, após um dos mais longos e prósperos períodos de expansão da renda média real dos brasileiros – entre o Plano Real e o final do segundo governo Lula  – a sociedade brasileira entrou em ebulição, com manifestações violentas por todo o País (quem não se recorda do Palácio do Itamaraty em chamas?), que colapsaram irremediavelmente a popularidade da presidente Dilma Rousseff, culminando em seu impeachment poucos anos depois.

Após conseguir acesso a bens de consumo como televisões, celulares e micro-ondas, a população queria muito mais. E passou a enxergar no Estado, e não no setor privado, o maior obstáculo à tão desejada ascensão social. A baixa qualidade dos serviços públicos, como educação, saúde, transportes e infraestrutura, contrastava com um Estado hipertrofiado, que através do crowding out sugava todos os recursos disponíveis e resultava em taxas de juros mais elevadas que no resto do mundo, restringindo também a alavancagem e capacidade de financiamento de empresas e indivíduos.

O descalabro fiscal da Nova Matriz Econômica agravou bastante a crise, trazendo a mais longa e profunda recessão de nossa história. No meio de tanta frustração e raiva, veio a onda moralizadora que impulsionou a Operação Lava Jato. Mas a corrupção era apenas a face mais nociva e repulsiva de um quadro mais amplo e causador de nosso atraso histórico: o modelo de crescimento econômico através de gastos públicos de baixa produtividade e com critérios pouco técnicos havia se esgotado.

Foi neste contexto que chegou o governo Temer, surpreendentemente exitoso em tão breve mandato, que trouxe de volta o diálogo aberto e a cooperação com o Parlamento e conseguiu implementar diversas e importantes reformas. Infelizmente, o governo já em 2017 foi abatido por um grande escândalo que lhe retirou as condições de prosseguir nas reformas e aumentou o anseio da população por uma nova liderança que rompesse com a política tradicional, por um outsider, com todos os riscos inerentes à pouca experiência em cargos executivos ou no diálogo com o Congresso Nacional.

O governo Bolsonaro chegou após uma campanha marcada por uma tentativa de homicídio, com início claudicante na coordenação política e com alguns personagens pitorescos em cargos importantes de primeiro escalão. Porém, com o passar do tempo, encontrou um caminho, melhorou a relação com o Congresso e conseguiu aprovar uma série de reformas importantíssimas para o Brasil, como a da previdência, a independência do Banco Central, os marcos do gás e do saneamento, entre outras.

Mais importante, o governo Bolsonaro continuou e aprofundou o processo de redução do Estado e controle das contas públicas iniciado no Governo Temer.

Mesmo com a pandemia, que tornou necessário um enorme esforço fiscal e monetário para preservar a economia e proteger uma população com alto grau de informalidade, sem proteção do Estado, conseguimos colocar as contas em ordem e deixar de herança um gasto primário inferior ao assumido do governo anterior, pela primeira vez desde a promulgação da desequilibrada Constituição de 1988, como apontado por Mansueto Almeida.

Como é de conhecimento geral, o governo Bolsonaro foi muito competente no front econômico, mas provocou muitos confrontos com o Judiciário e gerou uma rejeição alta, inclusive na grande mídia. O resultado foi uma eleição extremamente polarizada, em que a rejeição a ambos os candidatos teve um papel mais relevante que o voto ideológico, de apoio explícito ao projeto político. Quem quer que vencesse teria uma difícil missão: conciliar e unir a sociedade brasileira.

O presidente Lula foi eleito com apoio de segmentos da sociedade que historicamente fizeram oposição ao PT e sob o signo da defesa da democracia, de uma frente ampla. A expectativa geral era da montagem de um governo que refletisse esta coalizão e caminhasse para o centro do espectro político, atento às expectativas de seus eleitores e do grau de mobilização e de rejeição por parte daqueles que votaram em Bolsonaro.

Depois de uma primeira semana de lua de mel com os mercados, começaram a chegar recados, às vezes pouco sutis, de uma volta não aos governos Lula 1 e 2, mas à política que fracassou de maneira retumbante no governo Dilma. A reação do mercado foi bastante forte e os preços dos ativos começaram a sinalizar desancoragem, perspectiva de volta da inflação, desvalorização cambial e dos ativos de risco, além de forte retração do investimento privado.

No final da primeira semana após a posse, o governo reagiu em diversas frentes, dando um freio de arrumação e desmentindo a intenção de rever a Reforma Trabalhista, reestatizar a Eletrobras e acabar com Lei das Estatais.

Os eventos lamentáveis que ocorreram em 8 de janeiro de 2023, dos mais tristes da história do Brasil, são um alerta de que isto apenas não será suficiente. Lula precisa pacificar e unificar o País, trazer crescimento econômico e justiça social. Mas isto só é possível com responsabilidade fiscal.

Não podemos mais vender o futuro para ganhos de curto prazo. A Nova Matriz Econômica mudou a trajetória de nossa dívida pública que, apesar da boa gestão entre 2017 e 2022, é muito mais elevada que a de nossos pares emergentes.

Lula tem a faca e o queijo na mão. Os três poderes e os governadores estaduais mostraram união na defesa dos valores democráticos após os ataques. Teremos uma grande safra em 2023, que deve trazer alívio para o preço dos alimentos. Com uma gestão competente e responsável, o Brasil deverá finalmente decolar.

Mas não podemos nos iludir. O clima é de profunda divisão e uma gestão que só sinalize para a sua base e abandone os princípios de boa política econômica pode provocar uma crise social profunda e nos levar ao caos.

Que o espírito de Nelson Mandela inspire o presidente Lula e que as feridas que foram abertas nestes últimos dez anos possam cicatrizar. O poema Invictus, de William E. Henley, que consolou Mandela em seus 27 anos de prisão, de onde saiu sem rancor e sem procurar vingança, termina assim: “I am the master of my fate. I am the captain of my soul” (“Sou o senhor do meu destino, o capitão da minha alma”, em tradução livre).

Estamos todos trabalhando arduamente e torcendo por um Brasil melhor e mais justo para todos, com ordem e progresso.

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